O Brasil registrou, em 2025, 80 assassinatos de pessoas transexuais e travestis, mantendo-se no primeiro lugar no ranking global de violência contra essa população. Os dados foram divulgados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e revelam, apesar de uma queda de cerca de 34% em relação a 2024, uma realidade alarmante que há quase duas décadas coloca o país na liderança desse triste índice.
A presidente da Antra, Bruna Benevides, destaca que os números são um reflexo de um sistema que naturaliza a opressão. "Não são mortes isoladas, revelam uma população exposta à violência extrema desde muito cedo, atravessada por exclusão social, racismo, abandono institucional e sofrimento psicológico contínuo". Esses fatores criam um ciclo vicioso que alimenta a marginalização e a vulnerabilidade da comunidade trans.
Os dados para o dossiê foram coletados a partir do monitoramento diário de notícias, denúncias diretas e registros públicos. Benevides argumenta que a subnotificação é uma forma de violência em si: "Se a sociedade civil não fizer esse trabalho, as mortes simplesmente não existem para o Estado". Essa afirmação ilustra como a invisibilidade social contribui para a persistência da violência.
Em termos geográficos, o Ceará e Minas Gerais lideraram o número de assassinatos em 2025, com oito mortes cada. A violência permanece concentrada principalmente na Região Nordeste, que registrou 38 assassinatos. O Sudeste segue com 17, enquanto o Centro-Oeste contabilizou 12, o Norte sete e o Sul seis. Esse padrão geográfico sugere uma complexa interseção entre fatores socioeconômicos e culturais que perpetuam a violência na região.
A Antra, ao longo de seus levantamentos, identificou São Paulo como o estado mais letal, com 155 mortes entre 2017 e 2025. A maioria das vítimas é composta por travestis e mulheres trans, predominantemente na faixa etária de 18 a 35 anos e pertencentes a grupos étnicos como negras e pardas. Essa demografia não é acidental; ela representa uma interseção de opressões que amplificam o risco de violência.
Embora os números de assassinatos tenham diminuído, o dossiê indica um aumento nas tentativas de homicídio, sugerindo que a redução não indica uma real regressão da violência. A Antra atribui essa situação a um conjunto de fatores, incluindo a falta de confiança nas instituições e a ausência de políticas públicas específicas para combater a transfobia. "É preciso reconhecer que as políticas de proteção às mulheres precisam estar acessíveis e disponíveis para as mulheres trans", afirmou Benevides, enfatizando a necessidade de ação imediata e eficaz.
O dossiê traz não apenas um diagnóstico, mas também recomendações concretas para o poder público, sistema de justiça e instituições de direitos humanos. Benevides acredita que o relatório "constrange o Estado", ao informar a sociedade e romper o silêncio que permeia a violência contra a comunidade trans. O documento será apresentado em cerimônia no auditório do Ministério dos Direitos Humanos, com entrega oficial aos representantes do governo federal.
Os dados apresentados pela Antra corroboram aqueles obtidos pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), que, em seu Observatório de Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil, registrou 257 mortes violentas em 2025, incluindo homicídios, suicídios e latrocínios. Apesar da redução de 11,7% em comparação a 2024, a média de uma morte a cada 34 horas revela a urgência de um debate mais amplo sobre a violência contra a população LGBT+. O Brasil, em 2025, continuou sendo o país com o maior número de homicídios e suicídios de pessoas LGBT+ no mundo, seguido pelo México e pelos Estados Unidos. Essa realidade não se limita a uma questão de direitos humanos; ela reflete problemas estruturais mais profundos que exigem a atenção de toda a sociedade.
Diante desse cenário, a luta pela visibilidade e proteção das pessoas trans continua, exigindo não apenas reformas institucionais, mas também uma mudança cultural que desafie as normas sociais que sustentam a violência e a discriminação. Reconhecer a vida e a dignidade das pessoas trans é essencial para a construção de uma sociedade verdadeiramente justa e igualitária.