Superar cinco diagnósticos de câncer ao longo da vida já seria um feito extraordinário para qualquer pessoa. Para um goiano de 36 anos, no entanto, tal história ganha novos contornos de superação, força e inspiração. Previsto para 2024, ele planeja escalar o Monte Everest, a montanha mais alta do mundo, situada na Cordilheira do Himalaia, entre o Nepal e o Tibete. “Propus-me a viver o impossível”, revelou em entrevista ao jornal O Popular, que trouxe à tona sua trajetória.
Segundo o relato, o homem – cuja identidade não foi divulgada por questões de privacidade – conviveu nos últimos anos com um diagnóstico recorrente e devastador: câncer. Ainda assim, não hesitou em encarar o tratamento médico de frente e desafiar prognósticos, mantendo o foco em uma vida ativa. “A cada desafio, eu me fortalecia. E, ao mesmo tempo, compreendia que a vida não pode ser vivida apenas em linhas habituais. É preciso buscar aquilo que nos tira do chão – neste caso, literalmente subir ao topo do mundo”. Atualmente em fase final de preparação física, ele treina intensamente, combinando técnicas de alpinismo com uma rotina exigente de exercícios e acompanhamento médico.
Um exemplo de superação e ciência
Embora a decisão de escalar o Everest seja notável por si só, o aspecto mais fascinante da história reside na jornada médica e emocional que precedeu esse momento. O câncer diagnosticado no goiano atingiu diferentes partes do corpo em intervalos distintos. Em sua vida adulta, ele passou por tratamentos que incluíram quimioterapia, radioterapia e cirurgias invasivas para remover os tumores. Apesar do impacto físico e psicológico desses procedimentos, não abandonou sua fé na ciência médica, bem como na capacidade humana de se reinventar.
Especialistas envolvidos em casos semelhantes destacam que a prática esportiva, quando acompanhada e bem orientada, pode desempenhar um papel fundamental na recuperação de pacientes oncológicos. Segundo o oncologista Lúcio Carvalho, do Hospital Araújo Jorge, em Goiânia, o exercício físico contribui diretamente para a melhora na qualidade de vida: “Além de ajudar no fortalecimento físico e na recuperação do sistema imunológico, a prática de esportes influencia a saúde mental, favorecendo a paciência e a resiliência”.
O goiano, que não é montanhista profissional, afirma que encontrou na escalada uma metáfora perfeita para a superação de suas dificuldades pessoais e médicas. Para ele, o Everest é imensamente mais do que uma montanha: “É um símbolo de transformação e de resistência humana. Se eu consigo enfrentá-lo depois de tudo, qualquer um pode atravessar seus próprios desertos internos”.
O significado do Everest
Com 8.849 metros de altitude, o Monte Everest é o pico mais alto do mundo e já foi palco de grandes conquistas, mas também de tragédias. Desde que foi escalado pela primeira vez em 1953 por Edmund Hillary e Tenzing Norgay, centenas de montanhistas têm se lançado ao desafio. A jornada, entretanto, está longe de ser simples: exige preparo físico rigoroso, experiência em alta montanha e condições financeiras consideráveis, além de envolver riscos significativos, como avalanches e o temido mal da montanha, causado pela baixa quantidade de oxigênio em altitudes extremas.
Muitos podem se perguntar o que motiva alguém a realizar tal desafio, especialmente após lutar contra uma doença tão desgastante quanto o câncer. Pesquisas no campo da psicologia esportiva vêm mostrando que experiências marcadas por superação física em ambientes extremos, como escaladas, podem trazer um senso profundo de autorrealização e de conexão com a própria vida. Especialistas explicam que essas aventuras são, para muitos, uma forma de romper com seus próprios limites e redefinir a própria existência.
“Essas vivências oferecem um significado maior à vida, algo que pode ser particularmente poderoso para quem enfrentou o enfrentável e sobreviveu”, aponta Mariana Lopes, psicóloga clínica especializada em saúde mental de pacientes oncológicos.
Um exemplo que inspira
Embora o planejamento de tal expedição envolva risco, o goiano conta com uma equipe médica, além de guias experientes em montanhismo. Ele continuará monitorando possíveis recaídas de sua condição de saúde antes e durante a escalada – algo essencial para minimizar os perigos. Este processo, afirma, é um trabalho em equipe: “Não se trata apenas de mim. Há médicos, amigos, familiares e guias a quem confiei minha vida, e por quem quero chegar ao cume. A vitória será compartilhada”.
Além do desafio físico, há também uma missão social. Inspirado por sua própria experiência, ele tem usado a história pessoal para conscientizar outras pessoas sobre a importância da detecção precoce do câncer e dos avanços no tratamento da doença. Ele deseja que sua escalada ao Everest seja também um tributo ao poder da ciência e à capacidade de pessoas comuns alcançarem o extraordinário. “Se eu puder inspirar uma pessoa a não desistir, já farei valer o esforço”, acrescentou.
O que podemos aprender?
A história do goiano dialoga com algo maior: o ímpeto humano de desafiar limites, mesmo quando enfrentamos as adversidades mais difíceis. Em um contexto em que enfrentamos desafios pessoais, coletivos e globais, a determinação desse homem emerge como uma poderosa metáfora para a nossa capacidade de encontrar força em momentos de vulnerabilidade.
Para muitos que enfrentam câncer ou outras dificuldades aparentes, o exemplo dele traz um ensinamento essencial: não se trata de ignorar as dificuldades ou fingir que elas não existem, mas de abraçá-las e transformá-las em trampolins para os topos mais altos – literalmente e metaforicamente.
A escalada ao Everest é um acontecimento aguardado não apenas pelo próprio aventureiro, mas por todos que acompanham sua jornada de perto. Ao pôr os pés no topo do mundo, ele levará consigo o simbolismo de uma luta que vai além dele próprio, ecoando uma mensagem de esperança, coragem e resiliência.