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Anvisa aprova semaglutida para prevenção de infarto e AVC

Com registro ampliado, medicamento passa a ser indicado também para reduzir riscos cardiovasculares em pacientes com doenças pré-existentes. Especialistas alertam que o uso não substitui hábitos saudáveis nem tratamentos convencionais

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a aprovação da semaglutida
Reprodução

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou recentemente a aprovação para ampliação do uso da semaglutida, medicamento originalmente desenvolvido para o tratamento do diabetes tipo 2, como ferramenta na prevenção de infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs). A decisão é vista como um marco importante pela comunidade científica, mas especialistas alertam que a medida deve ser complementada com outras práticas de saúde e estilos de vida saudáveis. A iniciativa chega em um momento em que as doenças cardiovasculares permanecem como principal causa de morte em todo o mundo, inclusive no Brasil.

A decisão surge após a análise de estudos que confirmam a eficácia da semaglutida na redução de eventos cardiovasculares em pacientes com condições prévias, como diabetes e obesidade. Lançada inicialmente como um agente para controle glicêmico, a substância demonstrou capacidade de minimizar riscos em um dos grupos mais vulneráveis, transformando-se em uma alternativa terapêutica de relevância para cardiologistas e endocrinologistas. “O reconhecimento pela Anvisa é um avanço notável. Apesar disso, é imprescindível lembrar que o remédio não substitui práticas como a manutenção de uma dieta equilibrada e a realização de exercícios físicos”, alerta a cardiologista da Unimed Goiânia, Dra. Fabíola Siqueira.

A semaglutida pertence à classe de fármacos chamados agonistas do GLP-1 (glucagon-like peptide-1), que imitam um hormônio natural responsável por regular os níveis de açúcar no sangue e o apetite. Estudos clínicos amplamente divulgados internacionalmente demonstraram que a substância reduz significativamente o risco de eventos cardiovasculares, como infartos e AVCs, em adultos diagnosticados com doenças associadas. Em um país como o Brasil, onde cerca de 14 milhões de pessoas convivem com o diabetes tipo 2, os impactos dessa decisão podem ser substanciais.

O histórico do medicamento é um ponto essencial nesta análise. Inicialmente aprovado pela Anvisa para o tratamento de diabetes, o fármaco passou a ganhar notoriedade ao ser indicado também no controle de peso, especialmente no contexto da obesidade severa. Sua nova aplicação, voltada à saúde cardiovascular, reforça o caráter multifuncional da substância. O especialista em endocrinologia Dr. Renato Albuquerque explica: “A semaglutida não é apenas uma medicação, mas uma ferramenta de manejo holístico. Suas aplicações refletem o avanço da medicina em compreender a interconexão entre condições metabólicas e cardiovasculares”.

No entanto, o entusiasmo com os benefícios do fármaco deve ser acompanhado de uma dimensão crítica. De acordo com Dra. Fabíola Siqueira, a droga não é isenta de efeitos colaterais, como náuseas, vômitos e desconforto gastrointestinal, que podem ser mais intensos nos estágios iniciais do tratamento. Além disso, o custo do medicamento ainda é elevado para a maioria da população brasileira, dificultando o acesso à sua aplicação em larga escala. O Sistema Único de Saúde (SUS) também não oferece a medicação gratuitamente, limitando sua expansão para aqueles com maior vulnerabilidade econômica.

O registro ampliado também levanta questões éticas e sociais. O acesso desigual a medicamentos de ponta revela as disparidades no sistema de saúde do país. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ibge) de 2021 mostrou que as doenças cardiovasculares estão mais presentes em populações de baixa renda, exatamente aquelas que possuem menos acesso a tratamentos adequados. Para especialistas em políticas públicas, a incorporação de fármacos como a semaglutida no SUS seria essencial para uma abordagem mais inclusiva e equitativa.

Por outro lado, a mudança no uso da semaglutida desperta novas discussões sobre a importância de estratégias preventivas mais amplas para combater doenças cardíacas. O Ministério da Saúde tem investido em campanhas de conscientização sobre hábitos de vida saudáveis nos últimos anos, mas o impacto dessas iniciativas ainda esbarra em desafios estruturais, como a falta de acessibilidade a alimentos saudáveis e espaços para prática de atividades físicas.

O Brasil, assim como outros países em desenvolvimento, enfrenta uma dupla carga de doenças: enquanto lida com os desafios da desnutrição em parte da população, também combate o aumento do sobrepeso e da obesidade. Dados recentes do Ministério da Saúde apontam que mais de 60% dos brasileiros estão acima do peso, fator que contribui diretamente para o avanço de condições como hipertensão e diabetes, ampliando o risco de eventos cardiovasculares.

Em meio à análise técnica e social, a aprovação da Anvisa reflete ainda uma aposta na inovação e na ciência como motores para melhorar a qualidade de vida. Entidades científicas e associações de pacientes têm destacado que, apesar de suas limitações, a semaglutida é um exemplo de como o avanço farmacológico pode transformar paradigmas em áreas médicas cruciais. Para que a decisão tenha impacto real, no entanto, será necessária a articulação de esforços entre o setor público, organizações de saúde e a sociedade civil.

Ao final, a ampliação do uso da semaglutida para prevenção de infartos e AVCs é mais um capítulo no enfrentamento das condições cardiovasculares, mas não resolve, por si só, os desafios mais amplos da saúde pública brasileira. Enquanto novos avanços científicos despontam no horizonte, especialistas reforçam que a prevenção continua sendo o melhor remédio. “Não podemos perder de vista que qualidade de vida e saúde se constroem no dia a dia, com escolhas conscientes e cuidados regulares”, conclui Dra. Fabíola.

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