O aumento nos casos de feminicídio em Goiás tem preocupado autoridades do Tribunal de Justiça (TJ-GO), que agora direcionam esforços para adotar medidas preventivas mais eficazes. Um levantamento recente revelou não apenas o crescimento dos crimes contra a vida de mulheres, mas também o aumento de um fenômeno perturbador: o suicídio dos agressores que, após cometerem o feminicídio, tiram a própria vida. A situação foi debatida em uma reunião interna de magistrados do tribunal na última semana, com foco em estabelecer projetos que possam reduzir a ocorrência desses casos antes que eles cheguem ao extremo.
De acordo com dados apresentados durante o encontro, os números de feminicídios no estado cresceram 18% no último ano, acompanhados de um aumento de 12% em suicídios de agressores após o crime. Juízes e desembargadores do TJ-GO destacaram a necessidade de atuar não apenas na repressão, mas, sobretudo, na prevenção, por meio de programas educativos e do fortalecimento da rede de proteção à mulher. Segundo o presidente do TJ-GO, desembargador Carlos Alberto França, o objetivo é “antecipar-se ao ciclo de violência, garantindo que as mulheres recebam apoio antes que a situação chegue a um ponto irreversível”.
O ciclo do feminicídio e suas raízes sociais
Especialistas em violência de gênero alertam que o feminicídio raramente é um ato isolado, mas sim o culminar de anos de violência psicológica, física e emocional. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que 81% das vítimas já haviam denunciado seus agressores antes do crime. No entanto, o índice de respostas efetivas ainda é considerado baixo.
A psicóloga especialista em violência doméstica, Helena Soares, explica: “O crime de feminicídio está diretamente relacionado a uma cultura de controle e posse sobre o corpo e a mente da mulher. Muitas vezes, o suicídio do agressor decorre do desespero e da ausência de caminhos saudáveis para lidar com frustrações e rejeições”.
Em Goiás, o TJ-GO já havia implementado projetos como o “Maria da Penha Virtual”, que facilita o acesso das mulheres a medidas protetivas por meio de uma plataforma online. A adesão ao programa aumentou 25% em 2023, o que indica maior conscientização, mas também revela o agravamento do problema.
Necessidade de ações preventivas estruturadas
Durante a reunião no TJ-GO, uma das iniciativas discutidas foi a ampliação de campanhas educativas que visem conscientizar não apenas mulheres, mas homens, sobre as consequências da violência de gênero. A ideia é engajar escolas, empresas e comunidades para abordar o tema sob uma ótica preventiva. Além disso, foi apontada a importância de capacitar as forças policiais e profissionais da área de saúde para que identifiquem potenciais agressores antes que as ações violentas se concretizem.
O juiz Renato Santana, que atua em casos de violência doméstica em Goiânia, defendeu a necessidade de trabalhar com os agressores em programas de reeducação: “É fundamental criarmos ações efetivas para desconstruir a masculinidade tóxica. Sem isso, continuaremos lidando apenas com as consequências dos crimes, e não com suas causas”.
Outro ponto de atenção é o acompanhamento psicológico das vítimas, muitas vezes fragilizadas e revitimizadas pelo sistema judiciário e pela sociedade. Para a promotora de Justiça Ana Clara Ramos, é imprescindível que o Estado seja mais ativo na rede de apoio psicológico e social às mulheres em situação de violência: “Não basta oferecer proteção física por meio de medidas protetivas. Precisamos garantir que essas mulheres tenham condições de reconstruir sua autoestima e sua independência”.
O papel da sociedade no enfrentamento do problema
Se o debate no TJ-GO sinaliza um avanço em termos de articulação institucional, especialistas indicam que é fundamental envolver a sociedade como um todo no enfrentamento à violência contra a mulher. Pesquisas indicam que boa parte dos agressores apresenta sinais de comportamento violento muito antes de cometerem atos mais graves. No entanto, amigos, familiares e vizinhos frequentemente ignoram ou subestimam esses sinais.
“O feminicídio não é um problema exclusivamente judicial. Ele precisa ser pautado no âmbito educacional, nas políticas públicas de assistência social e nos nossos próprios lares. Só assim conseguiremos mudar essa realidade”, pontuou a socióloga Clarice Mendes, que estuda a relação entre violência de gênero e desigualdade social.
O governo estadual, por sua vez, também anunciou medidas para contribuir com a prevenção do feminicídio. Entre elas, está a criação de mais casas de acolhimento para mulheres em situação de risco e o incremento de campanhas públicas em áreas rurais, onde os índices de violência contra a mulher são consideravelmente maiores.
Desafios pela frente
Embora promissoras, as iniciativas precisam enfrentar desafios estruturais como a escassez de recursos, a burocracia e, sobretudo, a mudança de mentalidade de parte significativa da população, que ainda relativiza ou mesmo justifica atos de violência. Além disso, a integração entre as diferentes esferas de governo e o Judiciário será fundamental para garantir que as medidas sejam efetivas.
Enquanto isso, o TJ-GO se compromete a não apenas endurecer as punições aos agressores, mas também investir em projetos que tornem possível identificar os sinais de alerta de um eventual feminicídio. “A nossa meta não é esperar que o crime aconteça para então agir. Nosso dever é salvar vidas e, para isso, precisamos estar um passo adiante”, concluiu o desembargador Carlos Alberto França.
Este esforço do TJ-GO reflete uma nova abordagem sobre como o poder público enxerga a violência de gênero em Goiás: não apenas como um problema jurídico, mas como um complexo fenômeno social que exige respostas igualmente amplas e multifacetadas. Neste contexto, o desenvolvimento de políticas preventivas não é apenas uma necessidade, mas um imperativo ético.