Sumário
Esta manhã de 12 de fevereiro de 2026 ficará gravada na memória coletiva de Itumbiara, a “Cidade Sorriso” do Sul de Goiás, como o dia em que o silêncio do poder foi rompido por disparos de arma de fogo vindos de dentro de uma das famílias mais influentes da região. Thales Machado, uma figura central na engrenagem administrativa do município e braço direito do prefeito Dione Araújo, protagonizou um episódio de violência indescritível ao atentar contra a vida de seus dois filhos, de 12 e 8 anos, antes de tirar a própria vida.
O crime, que as autoridades classificam preliminarmente como um homicídio seguido de tentativa de homicídio e suicídio, não apenas encerra de forma abrupta a trajetória de um gestor público de perfil técnico e respeitado, mas lança luz sobre as profundas e, muitas vezes, invisíveis crises que podem corroer as estruturas familiares sob o manto da vida pública exemplar.
O cenário da tragédia, marcado pelo isolamento policial e pelo trabalho frenético das equipes de socorro, reflete uma realidade que desafia as estatísticas de segurança do estado. Enquanto Goiás celebrava, nos relatórios do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, uma queda significativa de 16,4% na taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) entre 2023 e 2024, o evento em Itumbiara recorda que a violência doméstica e intrafamiliar permanece como um território sombrio e de difícil monitoramento para as políticas públicas.
O impacto emocional da ocorrência transbordou as fronteiras do município, sendo repercutido em rede nacional e mobilizando as mais altas instâncias da Segurança Pública.
A Cronologia do Desespero: Do Afeto Digital à Barbárie Real
Os eventos que culminaram na morte do primogênito de Thales Machado e no estado gravíssimo do filho caçula começaram a ser delineados horas antes da primeira chamada para a Polícia Militar (PM). Thales Machado, um usuário ativo das redes sociais, utilizou seu perfil no Instagram para construir uma narrativa que, em retrospecto, soa como um prelúdio macabro. Nas primeiras horas da manhã, ele publicou imagens que retratavam a rotina de seus filhos com uma ternura aparente: o mais velho em uma aula de luta e o mais novo, concentrado, desenhando em um caderno enquanto se aninhava no colo do pai.
A legenda, “Que Deus abençoe sempre, meus filhos... Papai ama muito”, projetava uma imagem de estabilidade e amor paternal que seria violentamente desmentida pouco tempo depois.
Entretanto, a ambivalência do comportamento de Thales manifestou-se em uma postagem subsequente, identificada por investigadores e pela imprensa local. Nesta, o tom mudava drasticamente de afeto para a confissão de uma intenção letal. O secretário pedia desculpas pelo ato que estava prestes a cometer e sugeria que a motivação central residia na dor insuportável causada pelo término de seu relacionamento com a esposa, mãe das crianças.
Este padrão, comum em casos de filicídio, demonstra como o agressor muitas vezes utiliza os filhos como instrumentos de vingança emocional ou como extensões de um vínculo que ele não aceita ver rompido.
A Polícia Civil (PCGO), ao assumir as investigações, trabalha com a hipótese de premeditação, fundamentada na sequência dessas publicações e na preparação do ambiente para o crime.A dinâmica do ataque revela que o filho mais velho, de 12 anos, foi o primeiro a ser atingido de forma fatal. Embora tenha sido rapidamente socorrido e encaminhado ao Hospital Municipal Modesto de Carvalho (HMMC), a gravidade das lesões internas impossibilitou qualquer tentativa de estabilização, e o óbito foi declarado pela equipe médica pouco após sua entrada.
Já o filho caçula, de apenas 8 anos, sobreviveu ao ataque inicial, mas foi transferido em estado gravíssimo para o Hospital Estadual de Itumbiara, o São Marcos, onde passou por intervenções cirúrgicas complexas na tentativa de preservar sua vida.
| Vítima | Idade | Status de Saúde | Unidade Hospitalar |
| Filho Primogênito | 12 anos | Óbito confirmado | Hospital Municipal Modesto de Carvalho (Hmmc) |
| Filho Caçula | 8 anos | Estado gravíssimo | Hospital Estadual de Itumbiara (São Marcos) |
| Thales Machado | N/A | Óbito (Suicídio) | Residência da família |
Thales Machado: O Perfil de uma Liderança em Fragmentação
Para a sociedade itumbiarense, Thales Naves Alves Machado não era apenas um nome nos jornais, mas um pilar da comunidade local. Engenheiro Agrônomo e administrador de empresas por formação, sua trajetória profissional era marcada por uma sólida competência técnica e uma presença constante em instituições de prestígio.
Thales atuou como gestor do Center Plaza por uma década e mantinha negócios no setor agrícola, o motor econômico da região. Sua inserção social era profunda: era ex-presidente do Rotary Club, Venerável Mestre da Loja Maçônica Cruzeiro do Sul e ex-presidente da Aengi.
Na esfera acadêmica, contribuiu para a formação de novos profissionais como o primeiro coordenador do curso de Engenharia Civil da Ulbra em Itumbiara e serviu como conselheiro federal por Goiás no Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea/Crea).
Essa imagem de homem público equilibrado e bem-sucedido torna a violência do crime ainda mais desconcertante. Sua ascensão política na gestão de seu sogro, o prefeito Dione Araújo, foi consolidada pela passagem em diversas secretarias estratégicas, onde Thales era visto como um executor eficiente e um articulador de confiança.
Trajetória de Cargos e Funções Públicas
| Instituição / Pasta | Função Exercida | Impacto Local |
| Secretaria de Governo | Secretário Municipal | Articulação política direta com o prefeito |
| Secretaria de Planejamento | Secretário Municipal | Gestão do crescimento urbano e orçamentário |
| Secretaria de Obras | Secretário Municipal | Supervisão de infraestrutura urbana |
| Secretaria de Agricultura | Secretário Municipal | Fomento ao agronegócio regional |
| Compave | Presidente | Controle de veículos e patrimônio municipal |
| Ammai | Assessor Técnico | Gestão de políticas ambientais |
| Confea/Crea | Conselheiro Federal | Representação técnica de Goiás em Brasília |
A dualidade entre a vida pública de Thales Machado — cercada de honrarias, cargos de confiança e liderança maçônica — e o desfecho trágico em sua residência é um objeto de análise para sociólogos e psicólogos forenses. O caso sugere uma falha nos mecanismos de detecção de crises psicológicas em indivíduos que ocupam posições de alta pressão e visibilidade. O “estilo de vida exemplar” muitas vezes atua como uma blindagem que impede que amigos e colegas percebam sinais de depressão ou impulsos violentos, resultando em tragédias que parecem surgir de um vácuo absoluto de sinais preventivos.
O Impacto Político e a Crise na Gestão Dione Araújo
A prefeitura de Itumbiara encontra-se em um estado de paralisia emocional. A tragédia atinge o núcleo duro da administração de Dione Araújo de duas formas devastadoras: como uma perda política de um de seus secretários mais atuantes e como uma ferida familiar incurável, visto que Thales era genro do prefeito e pai de seus netos.
A Secretaria de Governo, que Thales comandava, é o pulmão da prefeitura, responsável pelo diálogo com a Câmara Municipal e pela coordenação entre as demais pastas. Sua ausência repentina, e sob tais circunstâncias, cria um vácuo administrativo que exigirá de Dione Araújo uma resiliência política sem precedentes.
A resposta da administração municipal tem sido de absoluto respeito ao luto, com a suspensão de agendas públicas e o foco total no suporte à mãe das crianças e ao neto sobrevivente. No entanto, nos bastidores da política goiana, o caso levanta discussões sobre a estabilidade emocional necessária para o exercício de cargos de confiança. Thales Machado não era apenas um nome técnico; ele era o articulador dos grandes projetos de Itumbiara, e sua queda arrasta consigo uma parte da estabilidade que a gestão Dione Araújo vinha tentando projetar para o próximo ciclo eleitoral.
As informações colhidas junto à TV Anhanguera e à PM indicam que o isolamento do local do crime foi uma das maiores operações do gênero na cidade, dada a necessidade de preservar provas em um caso que envolve figuras do alto escalão.
A investigação da PCGO busca agora entender se o comportamento de Thales havia sofrido alterações perceptíveis nos dias anteriores ao crime, o que poderia levar a uma reflexão sobre a responsabilidade das instituições em monitorar a saúde mental de seus quadros diretivos.
Contexto da Segurança em Goiás: Entre a Queda de Homicídios e a Violência Doméstica
A tragédia de Itumbiara ocorre em um momento em que Goiás apresenta dados ambíguos em seus relatórios de segurança. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 aponta que o estado é referência nacional na redução de Mortes Violentas Intencionais (MVI), com uma queda de 16,4% de 2023 para 2024, consolidando uma tendência de decréscimo iniciada em 2018.
Em números gerais, Goiás desfruta da nona menor taxa de MVI do país, o que é frequentemente utilizado pelo governo estadual como prova da eficácia das forças policiais.
Contudo, quando a lente se volta para a violência contra a mulher e crimes domésticos, a realidade é menos otimista. O estado registrou 56 feminicídios em 2024, o exato mesmo número do ano anterior.
Embora a taxa por 100 mil habitantes tenha tido uma leve queda de 1,1% devido ao crescimento populacional, a estabilidade nos números absolutos indica que a violência que ocorre dentro de casa não está sendo combatida com a mesma eficácia que o crime organizado ou os homicídios de rua.
O crime cometido por Thales Machado, embora tenha como vítimas as crianças, é um desdobramento direto de um conflito de gênero e de uma visão de posse sobre a parceira e a prole, enquadrando-se no que o Atlas da Violência 2025 classifica como crimes motivados por “razões da condição de sexo feminino” ou desdobramentos de violência familiar.
Comparativo de Indicadores de Violência - Goiás
| Categoria de Crime | Dados 2023 | Dados 2024 | Variação Percentual |
| Mortes Violentas Intencionais (MVI) | N/A | Redução Consolidada | -16,4% |
| Feminicídio (Casos Absolutos) | 56 | 56 | 0,0% |
| Taxa de Feminicídio por 100 mil mulheres | N/A | N/A | -1,1% |
| Homicídios Ocultos (Estimativa) | Crescente | Estável | Tendência de Alta |
O Atlas da Violência 2025 também destaca a preocupação com os “homicídios ocultos”, mortes violentas por causa indeterminada que muitas vezes mascaram episódios de violência doméstica mal investigados.
No caso de Itumbiara, a publicidade do ato e as mensagens deixadas pelo agressor eliminam a dúvida sobre a autoria, mas reforçam o alerta sobre a letalidade das crises de separação em contextos de dominação masculina.
O Papel das Redes Sociais no “Teatro da Tragédia”
Um elemento perturbador nesta ocorrência é o uso das redes sociais como palco para a despedida e a justificativa do crime. Thales Machado, ao publicar fotos de ternura com os filhos poucas horas antes de atentar contra suas vidas, utilizou o Instagram como um mecanismo de manipulação da imagem pública pós-morte.
Este fenômeno é amplamente discutido no Anuário de Segurança de 2025, que menciona o aumento de crimes no “entorno digital” e o uso de plataformas como o stories para a exibição de comportamentos extremos.
A terminologia utilizada pelo dicionário de referência do jornal Liras da Liberdade, o Houaiss, já integra o termo “post” como um registro ou publicação em meios digitais, refletindo a incorporação dessas práticas no cotidiano linguístico e social.
A forma como Thales articulou sua última mensagem — um pedido de desculpas que tentava transferir a carga de sua ação para o sofrimento gerado pelo fim do casamento — é uma tática de vitimização do agressor que busca, de forma póstuma, angariar simpatia ou, no mínimo, fornecer uma explicação que o retire do lugar de vilão absoluto.
A investigação da PCGO agora analisa o histórico de navegação e as comunicações privadas do secretário para identificar se houve o uso de tecnologias para monitorar a ex-esposa ou se o crime foi planejado através de buscas por armamentos e métodos de execução. O “teatro da tragédia” digital montado por Machado serve como um lembrete de que as redes sociais não são apenas espaços de convivência, mas podem se tornar arquivos de evidências cruciais para a compreensão da psique criminal contemporânea.
A Rede de Saúde em Alerta: Do Hmmc ao São Marcos
O atendimento às vítimas mobilizou a elite da medicina de urgência em Itumbiara. O Hospital Municipal Modesto de Carvalho (HMMC) foi a primeira unidade a receber o impacto da tragédia. Com uma estrutura voltada para o pronto-atendimento, a unidade tentou manobras desesperadas para salvar o jovem de 12 anos, mas a letalidade dos ferimentos por arma de fogo em órgãos vitais selou o destino do menino antes que qualquer intervenção cirúrgica pudesse surtir efeito.
Já o Hospital Estadual de Itumbiara, o São Marcos, tornou-se o epicentro das esperanças da cidade. O filho caçula, de 8 anos, chegou à unidade em choque hemorrágico, sendo imediatamente levado ao centro cirúrgico. A complexidade do caso exigiu uma equipe multidisciplinar, e o estado do paciente permanece como “gravíssimo”, um termo técnico que, no jargão médico, indica um risco iminente de morte e a necessidade de suporte avançado de vida.
A transferência e o atendimento desse menor são monitorados pela Secretaria de Estado da Saúde, dada a repercussão e a gravidade do evento.
O suporte psicológico às equipes que atenderam a ocorrência também tem sido uma preocupação. Profissionais de saúde e policiais militares que se depararam com a cena do crime e com a idade das vítimas enfrentam o que a literatura médica chama de trauma secundário. Em cidades menores como Itumbiara, onde muitos se conhecem, o impacto de atender o filho de um colega de administração ou de um conhecido da maçonaria amplia a carga emocional do serviço de emergência.
Defesa da Vida
O jornalismo deve ser a voz que ecoa a dor do outro e que questiona as estruturas de poder que permitem que o desespero se transforme em barbárie.
A morte de Thales Machado e de seu filho, somada à luta pela vida do pequeno sobrevivente, deve servir como um divisor de águas para Itumbiara. É imperativo que a gestão pública não se limite apenas ao luto, mas implemente políticas robustas de saúde mental e de prevenção à violência intrafamiliar, especialmente direcionadas àqueles que detêm o porte de arma e posições de comando. A "liberdade" que o nome deste jornal evoca não é apenas a política, mas a liberdade de viver em um ambiente onde o amor paternal não seja uma máscara para a posse letal.
A investigação continuará seu curso, os corpos serão sepultados e a política local buscará novos nomes para preencher as lacunas deixadas. No entanto, a cicatriz deixada neste 12 de fevereiro de 2026 permanecerá como um lembrete de que a vigilância sobre a saúde emocional e a proteção dos direitos da infância são deveres que não podem ser negligenciados em nenhuma esfera, seja ela privada ou pública. Que Itumbiara encontre, no suporte mútuo e na busca pela justiça, o caminho para curar suas feridas e garantir que o grito de dor de uma família não seja esquecido no turbilhão das notícias cotidianas.