Na década de 1970, o Brasil testemunhou uma transformação silenciosa, mas profunda, em seus hábitos alimentares. O protagonista dessa mudança foi o feijão-carioquinha, uma variedade desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) que, em pouco tempo, conquistou o paladar da população e se tornou o tipo de feijão mais consumido no país. Atualmente, ele está presente em cerca de 60% dos pratos brasileiros, um feito notável que merece ser explorado em suas nuances.
O desenvolvimento do feijão-carioquinha não foi um mero acaso. Foi o resultado de anos de pesquisa e experimentação, liderados por cientistas e agrônomos da Embrapa, que buscavam uma variedade mais produtiva, resistente a doenças e adaptada às condições climáticas do Brasil. Antes do carioquinha, o feijão preto predominava, mas sua produção era instável e sujeita a grandes variações de preço. O novo feijão, com sua cor bege rajada e sabor suave, oferecia uma alternativa mais confiável e acessível para os agricultores e consumidores.
A aceitação do feijão-carioquinha foi impulsionada por uma série de fatores. Além de sua maior produtividade e resistência, ele também se mostrou mais fácil de cozinhar e mais versátil na culinária. Sua cor clara também agradou aos consumidores, que o consideravam mais “limpo” e “saudável” do que o feijão preto. A Embrapa também desempenhou um papel crucial na divulgação do novo feijão, promovendo campanhas de marketing e distribuição de sementes para os agricultores.
A “revolução” do feijão-carioquinha, como alguns a chamam, não se limitou à mesa dos brasileiros. Ela também teve um impacto significativo na agricultura do país. O aumento da demanda pelo novo feijão incentivou os agricultores a investir em sua produção, o que gerou empregos e renda no campo. Além disso, o sucesso do carioquinha serviu de modelo para o desenvolvimento de outras variedades de feijão e de outros alimentos, impulsionando a inovação e a modernização da agricultura brasileira.
No entanto, a história do feijão-carioquinha também levanta questões importantes sobre a nossa relação com a alimentação e a agricultura. A nossa dependência de uma única variedade de feijão nos torna mais vulneráveis a pragas, doenças e mudanças climáticas. Além disso, a produção em larga escala do carioquinha pode ter impactos negativos no meio ambiente, como o uso intensivo de agrotóxicos e a perda de biodiversidade.
É preciso, portanto, repensar a nossa abordagem em relação à alimentação e à agricultura. Devemos valorizar a diversidade de alimentos e sistemas de produção, buscando alternativas mais sustentáveis e resilientes. Devemos também fortalecer a pesquisa e o desenvolvimento de novas variedades de feijão e de outros alimentos, que sejam adaptadas às condições locais e que atendam às necessidades nutricionais da população.
Como nos lembra o filósofo francês Michel Foucault, “o poder não é uma instituição, nem uma estrutura, nem uma certa força que possuímos; é o nome que se empresta a uma situação estratégica complexa numa dada sociedade”. A história do feijão-carioquinha é um exemplo de como o poder, no sentido foucaultiano, pode se manifestar na produção e no consumo de alimentos, moldando nossos hábitos e nossas escolhas.
Em um mundo cada vez mais globalizado e complexo, é fundamental que tenhamos consciência do impacto de nossas escolhas alimentares e que busquemos alternativas mais justas, sustentáveis e saudáveis. O feijão-carioquinha, um símbolo da identidade nacional, pode nos inspirar a construir um futuro alimentar mais promissor para o Brasil e para o mundo.