O que será feito dos livros que não li? Todo leitor tem a ânsia de ler diversos livros. Mas se a vida não der tempo para lê-los? Por isso, repito: o que será feito dos livros que não li?
Sinto um amargor por saber que não lerei todos os livros que gostaria. E agora? Eu, particularmente, tenho uma lista com mais de oitocentos livros anotados. Quais lerei? Quais deixarei para trás? Gostaria do eterno retorno de Nietzsche para saber que conseguirei terminar a infindável lista.
Também penso nas ideias inacabadas dos escritores que nos deixaram. O que será que Machado de Assis tinha para os próximos livros? Que pauta ele gostaria de tratar? Creio que jamais saberemos.
Como disse meu quase xará, Umberto Eco: "Tem coisas na vida que precisamos ter sempre em abundância, mesmo que usemos apenas uma pequena porção.” É por isso que sempre temos nossa “farmacinha” e nossa “livraria”.
Mas voltemos aos livros quase lidos. Dos livros que tenho, quais serão lidos? Quais ignorados? Quais ficarão inacabados? Não posso morrer sem saber o final de um romance que estou lendo. Não posso morrer sem ter a certeza de que Capitu traiu Bentinho. Alguém pode fazer algo sobre isso, por favor?
É muito mórbido pensar nos livros que eu gostaria de ler ao invés de aproveitar os que estou lendo? Talvez fosse mais apropriado embalsamá-los.
Schopenhauer, querido Arthur, mais uma vez você em meus textos... Bom, Schopenhauer ensinou, em “Sobre como lidar consigo mesmo”, que “deixamos passar milhares de horas alegres e agradáveis, sem desfrutá-las e com rosto amuado, para depois, nos tempos sombrios, suspirarmos por elas em vão.” Querido leitor, apenas leia o livro mencionado.
Pois é... por vezes me pego lendo um livro de forma exageradamente acelerada para que eu possa chegar ao próximo a fim de terminar a lista (grande utopia), sem digerir o que estou lendo e, depois lendo uma citação do livro rapidamente devorado, pensar que eu poderia tê-lo digerido melhor. Grande Schopenhauer.
Confesso que ainda sou amargurado com a ciência de que não lerei todos os que eu gostaria, assim como tenho certeza de que vários escritores se foram antes de imortalizar seus dizeres. Fazer o quê? Nos resta aproveitar o caminho sem pensar no destino.
E aí eu pergunto a nós, leitores: por que comprar livros que se acumulam, mesmo sabendo que podemos não os ler?
Somos perseguidos pelos olhos julgadores dos livros empoeirados, mas falamos a nós mesmos que a vez deles está chegando. Está mesmo?
E, quando eu me for, deixo um recado aos livros não lidos: “saudade daquilo que fomos; conservo-te em bustos — talvez, outrora, tenhamos sido amigos de outros mundos”.