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INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

A condição humana: um parêntese entre dois infinitos

Artigo do escritor e ensaísta Abílio Wolney Aires Neto reflete, a partir da obra de Nelci Silvério de Oliveira e da poesia metafísica de Huberto Rohden, sobre a fragilidade e a grandeza da existência humana, situada entre a finitude material e a eternidade espiritual

Diante da vastidão do céu estrelado e do horizonte que une mar e montanhas, a figura humana surge como uma presença mínima, quase silenciosa, entre dois infinitos. A imagem traduz visualmente a reflexão de Huberto Rohden retomada por Nelci Silvério de Oliveira: o homem como um breve parêntese no cosmos, pequeno na matéria, mas grandioso quando iluminado pela consciência do divino que o habita. (Crédito: Arthur da Paz & ChatGPT)
“Embaixo o mar,
em cima o firmamento.
E no mar e no céu,
a imensidade”
Castro Alves

Numa recostada, li em livro físico as 85 páginas do 17º livro do professor Nelci Silvério de Oliveira, sob o título compassivo de Momentos de Reflexão, publicado pela Editora do Conhecimento. Nesse exercício de leitura pausada, veio-me à mente um dos versos do poeta da Liberdade: “Dois infinitos ali se estreitam num abraço insano: azuis, dourados, plácidos, sublimes… Qual dos dois é o céu, qual o oceano?”

No vocativo inicial da obra, entretanto, Nelci transcende a metáfora sensível e convoca uma poesia dimensional de Huberto Rohden sobre a condição humana como um parêntese entre dois infinitos, superando os limites dos olhos físicos e conduzindo o leitor a uma reflexão metafísica profunda:

“Nós, meu amigo, somos de ontem — e amanhã deixaremos de ser…

E, quando a humanidade deixar o cenário do universo, continuará o drama da terra e do cosmos — sem nós…

Sem nós — como milênios antes, como se nunca tivéssemos existido…

Somos um pequenino parêntese — entre dois infinitos…

Somos um subitâneo lampejo — na noite eterna…

Somos um grito apenas — no silêncio imenso do deserto cósmico…

Somos uma microscópica ilha de vida — no oceano da morte universal…

Somos um Nada…

E, no entanto, esse Nada do homem é grande — porque iluminado pelo Tudo da Divindade…

A luz do seu poder, alvo da sua sabedoria, objeto do seu amor — sou mais que todo o resto do mundo…

De ontem, apenas hóspede na terra — sou eterno no pensamento de Deus…

Partirei amanhã para longe da terra — e serei imortal no seio de Deus…”

A imagem rohdeniana do ser humano como “um pequenino parêntese entre dois infinitos” oferece a chave interpretativa para compreender a reflexão filosófico-espiritual recolhida e aprofundada por Nelci Silvério de Oliveira. Logo nas primeiras linhas, a consciência humana é colocada diante de sua própria fragilidade: um lampejo na noite eterna, uma pequena ilha de vida perdida no vasto oceano do cosmos. Essa constatação não busca diminuir o valor da existência, mas situá-la com lucidez. O ser humano, visto apenas sob o prisma material, é um instante que passa; iluminado pelo Mistério que o transcende, revela grandeza e sentido.

A tensão entre o nada e o tudo estrutura toda a mensagem. Se, de um lado, somos efêmeros, de outro participamos de uma realidade maior, que nos antecede e nos sucede. Rohden chama essa realidade de Divindade; Oliveira, fiel ao espírito universalista, reconhece nela a Fonte que habita o íntimo da consciência e que não se limita a formas religiosas específicas. A espiritualidade que ambos propõem não se apoia em dogmas, mas na experiência interior: um convite à escuta do “Cristo Interno”, expressão simbólica da centelha divina presente em cada ser humano.

Ao afirmar “sou eterno no pensamento de Deus”, o texto rompe com a ideia de uma existência reduzida ao corpo. A eternidade aqui não é compreendida como mera duração infinita no tempo, mas como pertencimento ontológico. Se, fisicamente, somos passageiros, espiritualmente pertencemos a um plano que não se submete à erosão do tempo. Essa percepção confere à vida um tom de responsabilidade e reverência. O que realizamos neste parêntese finito ecoa para além dele; o modo como conduzimos nossa consciência deixa marcas que ultrapassam a matéria.

A efemeridade evocada no início — a humanidade que um dia desaparecerá, o cosmos que seguirá seu curso indiferente — não conduz ao desespero existencial, mas ao despertar da consciência. Rohden não se detém na pequenez do ser; destaca a grandeza que nasce justamente do reconhecimento da Fonte. A vida humana, vista superficialmente, parece um grito no silêncio cósmico; vista em profundidade, é um gesto da própria Divindade que se expressa na matéria e na consciência. Eis o núcleo da metafísica rohdeniana e do olhar interpretativo de Oliveira.

A espiritualidade universalista que emerge dessa leitura supera fronteiras religiosas e filosóficas. Não se trata de negar tradições, mas de reconhecer que, sob todas elas, existe um núcleo comum: a busca da união entre a criatura e o Criador. Oliveira identifica nesse núcleo uma ética da interioridade. O divino não é propriedade de instituições; manifesta-se como presença silenciosa na consciência moral, na sede de verdade, beleza e justiça. A jornada espiritual, portanto, dispensa intermediários formais: exige clareza, humildade e abertura interior.

O homem é pequeno apenas quando se mede por parâmetros externos — riqueza, poder, prestígio. Quando se reconhece como parte da vida universal, reencontra a grandeza que lhe é própria. Por isso Rohden afirma que “o Nada do homem é grande porque iluminado pelo Tudo da Divindade”. A grandeza não está no ego, mas no reflexo da Luz que nele habita. É essa luz que confere sentido à existência e orienta a ação no mundo, relativizando disputas menores e destacando o valor do aperfeiçoamento interior, da compaixão e da lucidez.

Se somos, como diz o texto, um “parêntese entre dois infinitos”, então cada instante se torna sagrado. A brevidade da vida não diminui seu valor; intensifica-o. Nada nos pertence de forma permanente, e justamente por isso tudo deve ser vivido com consciência. Ao mesmo tempo, saber-se eterno no pensamento de Deus impede que o medo da morte paralise a existência. A vida é passagem, mas também é retorno: retorno à Fonte, ao centro da realidade espiritual, ao ponto em que o humano reencontra plenamente o divino.

O pensamento de Rohden, recolhido em Momentos de Reflexão, não oferece fórmulas nem dogmas. Oferece uma visão integrada da condição humana, em que finitude e transcendência se iluminam mutuamente. Somos frágeis, sim; mas também portadores de uma luz que nenhum limite pode apagar. Entre dois infinitos, o ser humano caminha, aprende, sofre, ama e desperta. E é nesse despertar — silencioso, interior e profundo — que encontra o sentido mais alto de sua própria existência.

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